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09
jan
2018

Oprah vira arauto de um novo tempo no discurso do Globo de Ouro

 

Quem assistiu ao Globo de Ouro no domingo viu ao vivo o discurso da Oprah Winfrey. Quem não viu, corre no YouTube. Como no Brasil pouca gente entende inglês, fiz uma versão txt do discurso da Oprah. Depois de me emocionar todas as vezes – enquanto assistia, duas vezes e durante o processo de versão.

Íntegra do discurso de Oprah Winfrey no Golden Globes (transcrição retirada do BuzzFeed, versão minha)

Em 1964, eu era uma garotinha sentada no chão de linóleo da casa da minha mãe em Milwaukee, quando vi Anne Bancroft entregar o Oscar de Melhor Ator no 36º Academy Awards. Ela abriu o envelope e disse cinco palavras que fizeram, literalmente, história: “The winner is Sidney Poitier” [O vencedor é Sidney Poitier]. Sobe ao palco o homem mais elegante que eu já tinha visto. Eu lembro de sua gravata branca, da sua pele negra – e eu nunca tinha visto um homem negro sendo celebrado daquele jeito.

Eu já tentei explicar muitas vezes o que um momento como esse significa para uma garotinha, uma criança que está nos lugares mais baratos, quando sua mãe chega do trabalho cansada até os ossos depois de limpar as casas dos outros. Mas tudo o que consigo é citar e dizer o que o próprio Sidney Poitier disse em “Os Lírios do Vale”: “Amém, Amém”. Amém, Amém. Em 1982, Sidney recebeu esse mesmo Prêmio Cecil B. DeMille aqui no Globo de Ouro e eu não perco de vista, nesse momento, que algumas garotinhas assistem enquanto eu me torno a primeira mulher negra a receber este prêmio.

É uma honra – é uma honra e um privilégio compartilhar essa noite com todas elas e também com os incríveis homens e mulheres que me inspiraram, que me desafiaram, me sustentaram e tornaram possível que eu subisse neste palco. Dennis Swanson, que apostou em mim em A.M. Chicago. Quincy Jones, que me viu no show e disse para Steven Spielberg “Sim, ela é Sofia em A Cor Púrpura”. Gayle, que tem sido a melhor definição do que é um amigo e Stedmen, que é a minha rocha. Estou citando apenas uns poucos.

Eu quero agradecer à Hollywood Foreign Press Association porque todos nós sabemos que a imprensa está cercada nos dias de hoje. Também sabemos que é a dedicação constante para revelar a verdade absoluta que nos impede de tentar esconder a corrupção e a injustiça; para ditadores e vítimas, para segredos e mentiras. Quero dizer que valorizo a imprensa mais que nunca, depois de viver esses tempos complicados, o que me traz ao seguinte: O que tenho certeza é que dizer a sua verdade é a ferramenta mais poderosa que todos temos. E estou particularmente orgulhosa e inspirada por todas as mulheres que se sentiram fortes e empoderadas o suficiente para expor e compartilhar suas histórias pessoais.

Cada uma de nós aqui está sendo aclamada por causa das histórias que contamos, e nesse ano, nos tornamos a história. Mas não é apenas uma história sobre a indústria do entretenimento. É uma que transcende qualquer cultura, país, raça, religião, política ou lugar de trabalho. Então essa noite quero expressar a minha gratidão a todas as mulheres que suportaram anos de abuso e violências porque elas, como a minha mãe, tinham filhos para alimentar e contas a pagar e sonhos para conquistar.

Elas são as mulheres cujos nomes nunca saberemos. Elas são as trabalhadoras domésticas, as agricultoras. Elas são as operárias, são as mulheres que trabalham em restaurantes e estão nas universidades, na engenharia, na medicina, na ciência. Elas são parte do mundo da tecnologia e da política e dos negócios. Elas são nossas atletas olímpicas e nossas soldados nas forças armadas e há alguém mais, Recy Taylor, um nome que eu conheço e acredito que vocês também deveriam reconhecer.

Em 1944, Recy Taylor era uma jovem esposa e mãe. Ela caminhava para casa, voltando da igreja, onde tinha participado de um culto, em Abbeville, Alabama, quando foi sequestrada por seis homens brancos armados, que a estupraram e a deixaram vendada no acostamento da estrada onde a pegaram. Eles a ameaçaram de morte, caso ela contasse o acontecido para alguém, mas a sua história foi contada à NAACP onde uma jovem trabalhadora, chamada Rosa Parks se tornou a principal investigadora do seu caso e juntas elas buscaram justiça. Mas justiça não era uma opção na era de Jim Crow. Os homens que a tentaram destruir nunca foram sequer indiciados. Recy Taylor morreu há dez dias. Com vergonha do seu 98º aniversário. Ela viveu como todos nós vivemos por anos demais numa cultura que é quebrada pela brutalidade de homens poderosos.

Por tempo demais, as mulheres não foram escutadas, nem acreditadas quando se atreveram a falar a verdade sobre o poder desses homens. Mas seu tempo acabou. O seu tempo acabou! E eu espero – só espero – que Recy Taylor tenha morrido sabendo que a sua verdade, como a verdade de tantas outras mulheres que foram atormentadas nesses tempos e são atormentadas até hoje, continua em pé. Que sua verdade continuou em algum lugar do coração de Rosa Parker, quase 11 anos depois, quando ela tomou a decisão de continuar sentada naquele ônibus em Montgomery, e está aqui, hoje, em cada mulher que escolhe dizer “Eu também” (#MeToo). E em cada homem, cada homem, que escolhe escutar.

Na minha carreira, o que sempre tentei fazer, seja na televisão ou no cinema, é dizer algo sobre como os homens e mulheres realmente se comportam. Dizer como experimentamos a vergonha, como nós amamos e nos enraivecemos, como falhamos, como batemos em retirada, perseveramos e como nos superamos. Eu entrevistei e interpretei pessoas que suportaram algumas das piores coisas que a vida pode oferecer, mas uma qualidade que todas elas têm em comum é a habilidade de manter a esperança de uma manhã radiante, mesmo durante a noite mais escura.

Então eu quero que todas as meninas que estão assistindo, aqui, agora, saibam que existe um novo dia no horizonte! E quando este dia finalmente amanhecer, será por conta de muitas mulheres magníficas, muitas das quais estão aqui hoje à noite, e alguns homens fenomenais, que lutaram duro para garantir que elas serão as líderes que nos levarão a um tempo quando ninguém jamais terá que dizer Eu também (#MeToo) de novo. Obrigada.

 


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