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15
jan
2018

Emoções, afetos e razões

Foto da Nebula Orion, em Pentaluma, California, por Bryan Goff

Há uns bons anos – talvez seis, talvez sete – estou praticando análise com um profissional muito inspirador, o André Gaiarsa. O trabalho com ele restaurou as minhas péssimas experiências com a psicanálise e hoje é a inspiração do texto do dia.

Ando emocionada. Tudo me toca, me afeta, me transforma. Um texto compartilhado pelo queridão Jânio Sarmento (O dia em que acidentalmente matei um menino – e como essa tragédia marcou a minha vida) ou a notícia de que teremos WOW (Women of the World)! No Brasil pelas mãos das queridonas Viviane Duarte, Gabi Bianco, Nina Best e Luciana Raele têm efeitos incríveis: lágrimas escorrem, lembro de experiências minhas, tenho novas ideias.

São textos, fotos, presenças, conversas que produzem um fluxo de emoção – em geral notado pelas lagriminhas ou lagrimonas – que me chacoalha, me tira do modo “produção racional”, me coloca para sonhar e, em geral, me faz acreditar mais num mundo melhor.

E aí a emoção se complexifica e se torna mais difícil. A cada vez que a tal esperança da manhã ensolarada pinta, eu fico com raiva – uma raiva imensa, avassaladora e quase destruidora. A razão é simples: tantas vezes as minhas esperanças foram espezinhadas, destruídas e jogadas no lixo que me agarro no ceticismo pra não me sentir uma idiota de novo.

E mesmo assim a esperança teima em renascer, a cada instante. Com uma música, um texto, uma boa notícia. Sim, continuamos com o Trump, o Temer, o idiotonaro (me recuso a escrever o nome) e mais uma corja que jamais se dá conta de um bem comum, do coletivo, de inventar um mundo novo.

E, sim, estes homens líderes – uns verdadeiros idiotas e me perdoem os homens maravilhosos que existem – também despertam outra raiva. Que produz afetos absolutamente diferentes. E conduz a novas razões.

Das lágrimas ao sorriso

É interessante como as lágrimas de emoção são poderosas. Em geral, não têm grande carga de tristeza – o primeiro sentimento que associo ao choro. Nesses momentos emocionados tenho sentido muita esperança nas pequenas transformações – pequenos gestos de empatia entre humanos que mostram que podemos ser maiores, melhores, mais doces e gentis.

Quando vejo a mulherada protagonizando, então – sim, sempre elas – aí a alegria é tanta que há ameaça de explosão nível Coreia do Norte. Seja no deboche da Rê Corrêa no seu novo canal do YouTube; em hashtags como #mulheresnotrabalho; em pequenas reuniões íntimas para comemorar uma de nós. Não importa. Qualquer reunião de mulheres, em nome de qualquer acontecimento, para mim é uma alegria, uma realização, uma conquista a comemorar.

Em geral essas ondas de emoção e sentimentos e esperança são atravessadas e interrompidas por enormes fluxos de pensamentos sobre política, injustiças, o estado das coisas no mundo. Tudo muito certinho, muito convincente, até parece bonito. Como aprendi lá na terapia, pura verborragia que me distrai, desvia e me faz perder o fio da meada.

A grande verdade é que pouco importa. Eu não confio no mundo – desconfio, inclusive até da minha própria sombra. E essa desconfiança, feita para proteger tem como efeito final corroer exatamente a esperança, que aparentemente permitiria ir em direção ao sonho.

Mais que tudo, me parece impressionante e surpreendente como emoções e sentimentos são difíceis e aparentemente “estrangeiros”. Tento, a cada um que aparece, racionalizar, explicar, dar sentido. E nisso, perco exatamente o que têm de mais precioso: a experiência e o que eles produzem em mim.

A lição que me fica? Viva. Como eu gosto de escrever, estou escrevendo sobre, um exercício de contar para mim mesma – e para vocês – que sentir, emocionar-se, expressar-se é bom. Teoricamente não acontecerá nenhuma desgraça maior a partir destes acontecimentos. Difícil mesmo é convencer minha pessoa que não será partida por um raio no mesmo instante.

Uma educação mais emocional?

Não há, aparentemente, como viver de forma a evitar totalmente as tais emoções – e os sentimentos que delas decorrem. Dos impulsos da raiva, as alegrias, a força que desprende do amor, há infinitas possibilidades.

A arte, claro, anda de mãos dadas e rosto colado com as emoções. Literatura, artes plásticas, música… todas têm conversas íntimas com as emoções, nos revelam outras fronteiras e novas possibilidades.

Talvez seja importante, neste novo milênio, a gente descobrir como incorporar este conhecimento e saber viver à educação dos nossos pequenos também. Claro que as famílias são fundamentais para ajudar suas crianças a processar e viver emoções. Se a gente procurar, certeza que há estudos sobre os benefícios do equilíbrio emocional e de ter mais inteligência emocional.

Só que vivemos de forma absolutamente racional. Passamos por cima dos próprios sentimentos e estados emocionais para ir ao trabalho, ganhar o pão de cada dia e até realizar coisas mais simples, como limpar a casa.

O que tenho aprendido é que a razão é uma parte da vida. Ajuda muito na hora de pensar e descobrir coisas importantes – e não pode ser separada ou isolada das tais emoções. E percebo que para alguns é muito mais simples fincar o pé na razão e ignorar a emoção – com seu gosto de incontrolável ou selvagem.

Nos círculos “bem educados” e na “elite” (muitas aspas), expressões emocionais costumam ser mal vistas. Tradições se constroem em torno do controle das emoções, que nos humanizam, permitem sentir junto com o outro (a tal empatia), ajudam a conectar.

Não sei como realizar de fato uma integração. Outro dia, pensava que talvez uma abordagem mais humana, integral – algo como a educação Waldorf – temperada com muita linguagem de programação e instrução sobre tecnologia seriam um novo caminho para construir um futuro melhor.

A verdade é que não existirá uma resposta monolítica, que escrevi mais de 800 palavras só pra dizer que: emoções podem ser bacanas e o meu preconceito com o lance – e o medo que tenho de várias delas – não se justifica.

Então que seja: venham emoções, sentimentos e vamos ver onde vamos parar!

Photo by Bryan Goff on Unsplash

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educação

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