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07
dez
2012

Carta aberta para a ANL sobre o livro digital

In my bag (updated: 2011) 

Eu já contei aqui o meu sofrimento para comprar um livro digital aqui no Brasil (http://ladybugbrazil.com/2011/08/atencao-livraria-cultura-eu-vou-comprar-na-amazon/). Aí a Amazon chega, o Google libera livros e… claro que os seres que comandam a distribuição – as livrarias e seus donos – não demoraram em soltar uma carta aberta recheada de palpites que, claro, ignoram solenemente exatamente o que eles dizem querer proteger: a cultura nacional. Não, não tem link porque publicaram o texto em PDF (que está aqui para você ler)

Trechinho que disparou a minha indignação:

(…)Mirando-se na experiência acumulada pela indústria cinematográfica que soube preservar, apesar de todas as turbulências e transformações recentes, sua cadeia de distribuição, a ANL, principal entidade em defesa dos livreiros brasileiros, através de sua diretoria, se manifesta e compartilha as seguintes orientações:

  • Recomendamos estabelecer um intervalo de 120 dias entre o lançamento dos livros impressos no formato de papel no mercado brasileiro e sua liberação nas plataformas digitais.
  • Solicitamos que o desconto para revenda do livro digital para todas as livrarias e para as demais plataformas seja uniforme, possibilitando igualdade de condições para todos os canais de comercialização nesse novo suporte de leitura.
  • Sugerimos que a diferença de preço a menor do livro digital para o formato impresso seja no máximo igual a 30%.
  • Na hipótese de a editora ou distribuidora vender diretamente ao consumidor final, o desconto nos livros digitais não deverá exceder 5%.

Portanto, com a preocupação da difusão da cultura e do livro, a ANL almeja o crescimento e fortalecimento da estrutura do mercado que refletirá diretamente no avanço da cultura e da educação no país.

 

Avanço da cultura e da educação? Como assim, meus senhores? A grande questão cultural é exatamente o preço. A Amazon faz a revolução criando meios de espalhar isso pra todo canto: nos celulares, por exemplo. E aqui no Brasil, temos mais de dois aparelhos por habitante, já. Conheço seres com três ou quatro.

Ler, amigos da ANL, é questão de costume. Eu sou leitora compulsiva (menos de bula, porque as letras são muito pequenas). Leio muito, desde pequena, sempre incentivada pela família. E tenho lido mais, muito mais, desde que instalei o aplicativo Kindle, da Amazon, primeiro no Tablet e depois no celular.

Os senhores não entenderam. Sabiam da chegada do gigante e ficaram quietinhos, sem se mexer. Agora durmam com o barulho. Porque eu quero ler TUDO no Kindle. Que me permite marcar, consultar dicionário, compartilhar com os meus amigos com um clique. Eu COMPRO COM UM CLIQUE.

Vocês vão vender menos? Problema de vocês. Livre iniciativa é isso: se tem algo melhor, ganha. E o consumidor é REI. Quem manda somos nós, não vocês.

Livros eletrônicos simples de baixar, fáceis de ler, nas pontas dos meus dedos e à disposição dos meus olhos. Quer dizer, os livros que compro na Amazon. No Brasil, eu sou roubada, porque compro e ninguém entrega – é um inferno conseguir ler. Para eu poder viajar nas boas histórias, nas teorias, no conhecimento que flui, apesar de vocês e dos preços escorchantes dos livros brasileiros.

Eu compro livros da Amazon há anos (desde 1996, para ser mais exata). Vocês embarreiraram a minha vida conseguindo impostos sobre estas compras. Ok, eu engoli. Vocês fizeram lobby, nós aqui, nem tínhamos blogs para nos expressarmos. Quanto mais associação nacional dos leitores.

E o mundo mudou. Não foi pouco. Agora temos blogs, Facebook, Twitter. E uma rede que, apesar de seus males, é para o bem, para cultura e para o conhecimento.

A indústria cinematográfica (e a fonográfica também) ainda não entendeu isso. Vocês, livreiros, vão seguir este caminho? Vão escolher justamente o modelo que não dá certo? Reinventem-se. Abram lojinhas menores. Financiem bibliotecas. Invistam na formação de leitores. Parem de atolar o Congresso – que tem coisas muito mais sérias para resolver – e se virem nos 30, como diria o Faustão.

Sabem há quanto tempo eu não compro um livro em papel? Há mais de três anos. Só tenho lido em inglês, tudo comprado legalmente e transferido em segundos para os meus aparelhos. O último livro que comprei, mês passado, foi em uma grande livraria, para dar de presente (só porque não existe a versão digital, as publicações digitais brasileiras são de última qualidade e categoria, um aborrecimento).

Não, não vou me solidarizar com vocês.

Eu quero livros em bom português, a R$ 2 (a Amazon vende versões Kindle a US$ 2 ou 3 dólares), entregues no meu aplicativo, sem drama, complicação ou atraso. De preferência, antes do livro em papel chegar às suas prateleiras.

Tenho certeza absoluta que não estou sozinha. Somos uma multidão que está pronta e querendo comprar livros, música e filmes em formato digital, a preços bons (não a R$ 23, a R$ 10!), entregues onde a gente quiser.

Detalhe: eu tenho 47 anos. E tem muito mais gente com a minha idade (ou mais) que também tem este desejo. Sem contar os milhões de jovens que dominam muito bem todos estes meios.

Estamos todos comemorando porque não temos mais que pedir pro amigo trazer o aparelho Kindle na bagagem. Agora vamos comprar aqui, a preço justo, a ferramenta que nos permite ler e trocar livros, anotar trechos, etc. Saibam: não existe igualdade entre canais. Existe, sim, a supremacia do digital. Esperar quatro meses pro lançamento estar no meu Kindle? Vocês perderam a noção do perigo! Isso só vai incentivar os males que as gravadoras e estúdios criaram: piratear. Mais claro: quem criou os piratas foi quem tentou cercar o conteúdo.

A maioria dos cidadãos digitais/digitalizados/integrados que pagar ao autor, ao criador. O que ele merece. Chega de atravessadores. Chega de escorchar os outros e sair dizendo que estão defendendo a cultura do livro. Que cultura? Esta que aí está? Vamos falar sério, por favor!

E chega de atrapalhar o consumidor e os cidadãos em nome do interesse de meia dúzia de livrarias – porque os senhores mesmo falam da concentração.

O último conselho? É para você, que gosta de ler e quer liberdade. Se indigne! Escreva a sua opinião (com toda educação, peloamor) para [email protected]

foto: lejaclyn via Compfight

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