21
Jul
2009

Atéia saindo do armário

Imagem: Atheism Bus, do Flickr de absentbabinski, em CC

O Ildeber chamou:.

Está em curso uma perigosa tendência a silenciar os ateus. O argumento – calhorda, cafajeste, ignorante – é que cada vez que um ateu sai do armário, se assume como tal e começa, a partir dali, a articular publicamente suas razões para ser ateu, ele está repetindo, mimetizando, reproduzindo a doutrinação evangélica com a qual somos bombardeados todos os dias. Cada vez que os ateus começamos a falar publicamente sobre essa mais óbvia e razoável das escolhas vem alguém nos acusar de … estar querendo evangelizar os outros!

Dá pra imaginar uma simetria mais falsa?

Foi o Átila me chamou a atenção sobre o assunto, sobre o qual ainda penso muito. Eu me auto-excomunguei quando o atual papa assumiu o comando da santa madre igreja. Esta é a minha “fé herdada”, que sempre balançou por conta dos absurdos históricos da mesma. De toda forma, eu nunca fui muito praticante. Entre os 18 e os 35, explorei tudo o que podia: nova era, umbanda, candomblé, mesas brancas. Passei por muitos centros espíritas, várias rodas de estudo de tudo o que vocês possam imaginar. Nada me convenceu, até que uma amiga mais velha me ensinou a lidar melhor com o assunto – sem grandes laços, com respeito e ouvindo o meu coração.

Em 2003 comecei a estudar o processo formativo com a Regina Favre. Não, não tem nada de religião. Entretanto, ao longo dos anos, cada vez mais fui me aproximando do meu organismo, do ser biológico e cada vez mais tudo passou a derivar deste lugar biológico – que teve um começo, está (espero) no meio e terá um fim. Minha “espiritualidade” (detesto a palavra #prontoconfessei) tem a ver com o que deriva deste lugar. Não passa por templos externos, passa pelas minhas vísceras, anda pelos músculos, se transmite em impulsos elétricos e resulta em algo que ainda não consigo nomear.

No meio do caminho, encontrei a Nospheratt e a Deusa. Aos poucos, sua prática, ler os mitos, praticar o feminino em mim se tornaram rituais diários e pessoais. É uma construção, para mim, atéia. Primeiro, porque a Deusa não tem um “culto” organizado. Há linhas e linhas e linhas – para isso, nada como consultar a Debora Rocco e participar da Escola de Magia. É muito mais estudo, autoconhecimento e reflexão, até onde eu entendo – que é pouco.

Sou atéia, mas acredito no céu dos animais da Zel, nas cartas do Tarô e, sim, dou uma espiadinha nos e-mails que o Personare manda. Contradição? Um tanto. Mas, incrivelmente, não tenho mais medo de inferno (que me assombrava quando era criança), nem de gente malvada. Encaro e enfrento a realidade – sim, eu vou morrer e pode ser agora, daqui a um mês ou uns anos, sabe lá… – e vou em frente, para o bem e para o mal, como diz a Regina.

No fundo de mim, a gente pode chamar como quiser, mas esta coisa chamada religião só serve mesmo para duas coisas. Primeiro: criar regras e crenças e amarrar a gente num lugar fechado e nada iluminado. Segundo: criar fundamentalistas que mais atrapalham do que ajudam. Se a religião foi, por séculos, a maior fonte de ética e moral – e o mundo chegou ao caos em que está, pontuado de guerra, violência e destruição enquanto nos púlpitos teoricamente se prega amor e boa vizinhança – prefiro os ateus.

Por razões de liberdade, igualdade e fraternidade: sou atéia. E um ser humano igualzinho a você. Por favor, me respeite (sim, os comentários serão moderados sem dó).

P.S. 1: enquanto eu meditava sobre este post, escrevia, reescrevia, Jakarta sofreu um ataque terrorista, provavelmente, dizia a CNN na madrugada, por parte de um grupo fundamentalista islâmico. E aí, vai continuar religioso? Não mate ninguém, por favor!

P.S. 2: aposto 10 joaninhas que os caras que maltratam animais, matam gente e abandonam crianças são religiosos. Melhor ser ateu, né?

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  • http://www.quetalisso.com.br Lucas Couto

    Oi Lúcia,

    Acho importante a manifestação dos ateus, agnósticos e desinteressados, pq nosso interesse sempre é deixado de lado pela população em geral (inclusive pelas estruturas oficiais, que deveriam ser laicas, mas não o são).

    Mas acho importante tb deixar claro q precisamos dar o exemplo no quesito tolerância. É uma pena q as pessoas ainda se choquem diante de um ateu, mas se isso existe, pq atirar isso na cara de quem pensa diferente, e tem uma crença em um deus?

    E nesse ponto foi o q me chamou mais a atenção em seu texto. Parabéns pela sutileza e suavidade ao tratar de um tema tão TENSO, rs…

    • http://www.ladybugbrazil.com Lucia Freitas

      Oi, Lucas
      Delicadeza é algo muito importante para tratar temas espinhosos, não? Apesar de viver fazendo confusão nesta vida, parece que consegui. Vamos ver se os fundamentalistas não aparecem :D
      Mas já fiquei felicíssima com o primeiro comentário

  • http://pomeu.com Nelson

    Querida Lu,

    Acredito que devemos respeitar as posições dos demais, sejam políticas, futebolísticas, sexuais ou religiosas. Mas cuidado com as generalizações. Tenho medo quando a garotada branda a estupidez contra vegans ou onívaros, tenho medo quando a “velharada” desfralda a estupidez no falecido embate direita-esquerda, e, me assusto quando tenta-se classificar criminosos por conta de opções religiosas. A maioria não é. Não é a opção religiosa que definirá os bons ou os maus.

    Beijos,

    • http://www.ladybugbrazil.com Lucia Freitas

      Dá-lhe Nelson!!! Radicalismo não leva a nada mesmo. Importante mesmo é a gente descobrir e assumir o que realmente somos – e termos a decência de mudar de idéia sempre, não? Afinal a vida muda. Pode ser que, depois de amanhã, graças à convivência com a Debora Rocco, que escreve lá no Deusario, eu me torne uma seguidora da Deusa…
      Tudo muda – é o único fato da vida, além daquele outro mais óbvio ainda, que escrevi: nós vamos morrer.
      A esta altura o bom negócio é viver da melhor forma possível. E aí vale a consciência de cada um… (meda)

  • http://otubo.net otubo

    Oi Lu!

    Graças a deus tu se assumiu e saiu do armário! Ok, a piada é sem graça, mas é essa mesma que uso quando falo sobre mim: “Eu? Ateu graças a deus!” É bem como vocês estavam discutindo ai em cima, pra que tratar assuntos com espinhos se a gente pode levar na leveza.

    Mas o ponto é importante e bastante delicado. Religião *infelizmente* é uma generalidade que incomoda muita gente por ai. Se você é diferente, então é o errado e ponto final. Eu fico brincando que todos nós certamente iremos para o inferno, por que imagine só: Se para dada religião, quem não a segue não é salvo, e se existem várias religiões diferentes por ai, então ninguém vai ser salvo. :) São grupos mutuamente excludentes.

    Mas infelizmente acho que a coisa está um cadinho mais em baixo, é o respeito. É só trocar a palavra religião por futebol ou software livre que você vai ver como o câncer é espalhado :(

    Mas enfim, bom texto, Lu. Legal saber sua posição sobre o tema. Tudo de bom :)

    []‘s

    • http://www.ladybugbrazil.com Lucia Freitas

      Oi, Edu…
      Yeah! O melhor de sair do armário é encontrar os iguais. E o grande ponto aqui está, IMO, na questão do respeito às diferenças. É algo difícil, parece, em todas as culturas. Do micro ao macro a gente vê muito desentendimento por conta deste detalhe: é diferente!
      Sim, a gente pode trocar religião por futebol, software, sexo, cor de cabelo, corpitcho malhado. Nerd sempre é espinhudo e feio… (o dulcetti que o diga, né? hehehehe) haja estereótipo para a gente desconstruir.
      Obrigada pelo pitaco. Amei.
      bj

  • http://www.ronaud.com Ronaud Pereira

    No meu blog, vez e outra trato deste tema. É realmente delicado. Por outro lado, o pior é que na internet as pessoas falam sobre suas opiniões as vezes com uma grosseria descabida. Como no trânsito. O que já nem tem a ver com religião, mas com educação.

    Enfim, adotando religião no sentido de “crença” ou “regra”, arrisco dizer que também sou ateu. No entanto, dada a grandiosidade da vida, deste universo, do espírito humano, não consigo conviver com a idéia de que viemos do nada e vamos para o nada. Mais espero – do que acredito – que haja algo mais além do que nossa compreensão consiga apreender.

    Perdoe o link, mas escrevi sobre isso aqui: http://www.ronaud.com/bom-senso/minhas-percepcoes-sobre-inteligencia-compreensao-e-descrencas/ tempos atrás. Se quiser, dá uma lidinha.

    Achei ótimo encontrar seu post e partilhar um ponto de vista. :-)

    • http://www.ladybugbrazil.com Lucia Freitas

      Oi, Ronaud
      Sempre é bom encontrar os semelhantes pelo mundo, né? Eu também gosto das diferenças – desde que permeadas pelo respeito…
      bem-vindo e volte sempre.

  • http://lilianeferrari.com liliane ferrari

    ah q belo post!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! gênia!
    eu sinto q há mto preconceito sim com o fato de se assumir ateu, pelo menos onde eu vivi (sempre morei em paises católicos então o fervor vem em primeiro plano…)

    (a melhor é q mesmo atéias!! somos à toa e lemos o Personare hahaha!)

    bjss

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